A Fúria Feminina!

Kony 2012, Revoluções de Sofá e a Disfunção Narcotizante

O vídeo que chamou atenção de muitas pessoas na última semana foi o Kony2012. O vídeo de 30 minutos que mostra a proposta da ONG Invisible Children em tornar Joseph Kony em um cara famoso. Mas a fama deste homem não seria positiva, já que a ONG quer conscientizar o público das atrocidades feitas por este homem contra milhares de crianças africanas. Só o vídeo postado no Youtube, sete dias atrás, já tem quase oitenta milhões de visualizações, se tornando o maior viral de todos os tempos.

Mas claro que junto com o vídeo, vieram as críticas. A ONG Invisible Children foi acusada pelas grandes mídias de enriquecimento ilícito, de doar apenas uma pequena porcentagem das doações para caridade de fato, que seus membros podem estar envolvidos com grupos rebeldes armados e que os Estados Unidos tem interesse no país por causa de possíveis reservas de petróleo.

Mas a principal questão que gostaria de levantar é sobre a Revolução do Sofá. Muitas pessoas criticam o ciberativismo e caímos no problema da disfunção narcotizante. Tal disfunção, discutida pela Teoria da Comunicação, trata do excesso de informação que a massa recebe e as torna menos crítica. Sabe aquela falsa sensação de “fiz a minha parte” só porque repassou a informação para outras pessoas? Então, é mais ou menos isso.Image

Óbvio que você não vai se tornar um ativista só porque assistiu a um vídeo de 30 minutos e descobriu que crianças africanas são sequestradas e forçadas a fazer parte de um grupo rebelde. Óbvio que a vida dessas crianças não vai mudar só porque você deu um “like” no Facebook e retuitou uma mensagem da ONG no Twitter. A questão é que mesmo que as pessoas não possam fazer  mudanças efetivas no conforto de seus lares, elas podem se engajar em uma ideia e conscientizar outras pessoas.

O vídeo do Kony só se tornou um viral porque mobilizou algumas pessoas que se sentiram comovidas e “aderiram” sua causa. De uma forma ou de outra, isto é um engajamento social. Fazer com que esta juventude individualista pense em alguma coisa além de seus próprios problemas, já é algo positivo. (Pense que muita gente nem sabia onde ficava a Uganda e quantas delas ainda achavam que a África é um país).

De tanto ser citado no Twitter e ter compartilhamentos no Facebook, Kony teve uma visibilidade maior do que tinha uma semana atrás. A mídia tradicional foi “forçada” a falar sobre isso em seus portais de notícias e telejornais. Particularmente acho que esta tática de usar as redes sociais e a cultura participativa para interferir nos meios de comunicação tradicionais, é válida. No mundo online, as iniciativas colaborativas podem alterar o papel do gatekeeper e dar visibilidade a causas pouco valorizadas.

A “população” das redes sociais é maior do que de muitos países e não há como negar sua influência e poder de disseminação de informações entre as pessoas. Claro que entre esses 80 milhões que se conscientizaram com a causa, muitos continuarão em frente as telas de computador, mas quantos deles realmente são pessoas que tem vontade e fazer alguma coisa e só estão precisando de um empurrãozinho? Não que você aí da sua casa possa mudar a vida de alguém na África, mas pode começar com iniciativas locais.

ImageMas também não podemos deixar os pontos negativos de lado: muitos só assistiram o vídeo, curtiram a página e não foram checar se a história narrada pelo vídeo realmente era verdadeira. Não tiveram nem a capacidade de abrir uma nova aba e dar uma pesquisadinha rápida no Google. Com esse péssimo hábito de não checar a notícia em outras fontes, o leitor fica mais passível de manipulação de opinião pública. (compartilhar informações equivocadas podem dar uma dor de cabeça inimaginável)

Não creio que o X da questão seja se as revoluções de sofá realmente são efetivas, mas sim a diferença que ela faz na vida dos usuários das redes sociais. Se você vai sair de casa, fazer um protesto, interditar uma avenida (e se isso realmente é efetivo) é uma incógnita. Se o viral deu uma visibilidade maior ao Invisible Children e 80 milhões de pessoas conheceram Joseph Kony, isso se pode afirmar sem sombra de dúvida.

Juliana Baptista

Juliana Baptista

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