A Fúria Feminina!

Brincando com coisa séria

A salvação de todos os clichês e chavões batidos é quando surge uma situação inusitada e não temos outra forma de descrever o acontecido. Por isso, o título desse post foi a primeira coisa que me veio a mente quando li a notícia publicada no site do Estado de São Paulo no último dia 3 :

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Quem clicou por curiosidade não encontrou muitas informações, pois a notícia é bem curta e fica claro que só esta lá por ser “mais um fato bizarro ligado ao Governo”.

Pois então, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) da Bahia criou uma página na internet com um jogo gratuito que mostra cartas – como em um baralho – com o rosto, nome, bairro e o crime cometido pelo procurado da polícia.

Há um cronômetro marcando o tempo e, quando o jogador completa a busca pelas cartas iguais, a brincadeira “passa para outra fase”.

As fases são iguais, sem maior ou menor grau de dificuldade, só mudam os rostos dos criminosos e no final não há nenhum prêmio, apenas o apelo da SSP ao uso do disque-denúncia e os telefones do serviço.

O “Baralho da segurança”, como chamou o jornal Estado de São Paulo, faz parte do projeto Pacto pela Vida da SSP – BA e tem o objetivo de incentivar que as pessoas conheçam o rosto dos principais procurados do estado baiano e ajudem a prendê-los. Essa seria uma contribuição da população para auxiliar as ações da segurança pública.

Lançamento do “Jogo da memória” na SSP BA

Depois de ver para crer que o jogo realmente existe, é hora de pensar outras questões envolvidas nessa “brincadeira”:

Imagine que “fotos de procurados pela polícia” podem interessar às pessoas muito mais por curiosidade do que pelo interesse de denunciá-los. Isso pode fazer com que esses criminosos acabem se tornando mais “famosos”. Essa popularidade acontece não como algo positivo – que ajuda a realização das prisões – mas como incentivo até mesmo de certo respeito entre os próprios criminosos. De repente, ter o rosto estampado em um jogo na internet pode acabar sendo útil para esses procurados.

As cartas do jogo com o rosto dos criminosos podem ser baixadas para o computador do usuário e também existem no formato impresso como as cartas de um baralho qualquer

Outra questão a ser pensada são as relações sociais em que vivem os personagens dessas ‘cartas de baralho’. Esses rostos envolvem pessoas que têm uma hierarquia específica entre eles e onde o crime acontece quase como um ‘mercado de trabalho’. Estar exposto no site da SSP é como ser eleito e promover a própria imagem. Além disso, o projeto quer incentivar o disque-denúncia, mas não prevê soluções para o medo e as ameaças que cairão sobre os denunciantes – esses outros cidadãos que sofrem com a criminalidade impune. É uma verdade prática que o anonimato da denúncia não é proteção suficiente nessa realidade da sociedade.

Para ir mais além, bastar questionar qual será o efeito de uma brincadeira como essa no pensamento das crianças que, hoje, têm acesso tão fácil à internet. Afinal – de modo retórico – um adulto ficaria brincando de jogo da memória para reconhecer rostos de pessoas procuradas pela polícia? Muitos desses pequenos e jovens não sabem a gravidade do “problema” que está por trás do rosto memorizado. Os criminosos se tornam anti-heróis e, ainda pior, exemplos do que “ser quando crescer”, pois são importantes ao ponto de ter a foto no jogo da internet.

Qual o REAL objetivo jogo?

Entre tantos outros argumentos que é possível pontuar, o fato dessa iniciativa ser colocada em prática grita o quanto um órgão do Governo pode ser irresponsável e como as idéias dos “criativos” políticos e funcionários públicos interferem na sociedade de maneira arriscada e falha.

Outro pensamento que me desperta é uma vontade irresistível de investigar quantos milhões foram pagos para construção desse jogo e qual é a memória dos políticos envolvidos. Afinal, trata-se de um investimento público e as contas devem estar à mostra para qualquer cidadão. Já que está valendo brincar com coisa séria, desconfio que na casa desse assunto alguns passariam a vez…

Lilian Figueiredo

Helena Ometto

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